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sábado, 4 de outubro de 2008

A crise do imobiliário nos EUA

Um artigo externo, de Alejandro Iturbe, a circular na net e que reproduzimos aqui na integra. Trata-se de uma análise interessante e extensa sobre a mecânica financeira mundial.

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Começou a crise económica mundial?

Após o alerta dado pelas várias luzes amarelas que se acenderam nos meses de Junho e Julho deste ano (2008) (forte queda em várias bolsas asiáticas, situação muito instável do importante banco francês BNP Paribás), em agosto, um forte abalo financeiro internacional teve seu epicentro localizado em Wall Street e a partir de lá estendeu-se ao resto do mundo.

Para amenizar os seus efeitos e tentar detê-lo, o Banco Central Europeu e a Federal Reserve dos EUA (o “Fed”), assim como os bancos centrais do Canadá e Japão, derramaram, em apenas três dias, mais de 300 biliões de dólares nos mercados financeiros (e outra quantia similar, posteriormente) para amenizar a derrocada nas bolsas e impedir a queda em cadeia de bancos e outras entidades financeiras.

Uma semana depois, a situação tornou-se mais tranquila, mas ainda não está claro se esta tranquilidade é passageira ou mais permanente. No entanto, a calmaria actual não pode ocultar as causas profundas que originaram o abalo e que, ao estar muito longe de terem sido resolvidas, podem voltar a surgir.

Um carácter cada vez mais especulativo

O capitalismo imperialista decadente manifesta uma tendência especulativa crescente. Isto é, existe uma massa cada vez maior de capitais parasitários (que não produzem novo valor) votados à especulação e à busca de lucros rápidos. Mas esses lucros provêm também, em última instância, da mais-valia extraída na produção.

Ao mesmo tempo, como aumenta de modo permanente o volume total de capital circulante, uma massa cada vez maior de mais-valia é necessária para sustentar a taxa média de lucro. Por um lado, isto obriga o capitalismo imperialista a acentuar cada vez mais os mecanismos de extracção directa e indireta de mais-valia (exploração dos trabalhadores, saque de recursos naturais dos países mais débeis, arrecadação decorrente das dívidas externas, etc.). Por outro lado, produz-se uma disputa ainda mais feroz entre os distintos sectores burgueses pelo destino final dessa mais-valia.

As “bolhas”

Ao se concentrar num determinado mercado (papeis da Bolsa, imóveis, commoddities, etc.), esses capitais originam uma “bolha” que empurra artificialmente os preços para cima, além de toda a base real, e também os lucros obtidos. Embora a “bolha” possa actuar como um factor que dinamiza outros ramos, ao mesmo tempo, a economia no seu conjunto adquire uma fragilidade e uma volatilidade muito maior ao estar baseada, em grande medida, sobre essa “bolha”.

Em algum momento, a “bolha” começa a esvaziar. Esse furo aparece como resultado de factores específicos, como os limites objectivos do crescimento do sector “inflado”. Mas, em última instância, esses factores imediatos reflectem as causas mais estruturais das periódicas crises capitalistas (a queda da taxa de lucro). Por outro lado, o esgotamento da bolha nesse sector vai causar um impacto negativo sobre o resto dos ramos da economia, abrindo-se assim a possibilidade de uma crise económica generalizada.

Todos os meios assinalam que o factor desencadeante do recente tremor financeiro foi a queda do mercado imobiliário nos EUA e noutros países imperialistas. Ou seja, o esvaziamento de uma grande bolha.

EUA: problemas económicos muito profundos

É importante destacar que o epicentro dos problemas actuais está nos EUA (a economia mais forte do planeta). Tanto o Estado, como as empresas e os consumidores, estão sobre-endividados. Ou seja, devem mais que a sua real capacidade de pagamento e, muitas vezes, mais que o valor real de suas propriedades. Toda a economia norte-americana dos últimos vinte e cinco anos foi-se construindo sobre os chamados “déficits gêmeos” (orçamento estatal e balança comercial exterior) que cresceram até chegar a cifras impronunciáveis.

Por isso, para funcionar normalmente, a economia norte-americana necessita que entrem no país a partir do exterior uma média de 3 biliões de dólares diários em empréstimos, inversões directas, compra de títulos do tesouro, remessas de lucros e royalties de filiais no exterior, etc. Se esta entrada se detivesse, a economia viria abaixo. Por isso, através de distintos mecanismos, os EUA actuam como um “aspirador” de toda uma parte da mais-valia extraída noutras regiões do mundo.

A dupla EUA-China

Neste sentido, é muito interessante analisar como vem funcionando, nos últimos anos, a dupla EUA-China como locomotiva do crescimento económico mundial.

As empresas norte-americanas realizaram gigantescas inversões na China, destinadas basicamente à produção industrial, que passou de produtos simples (eletrodomésticos e têxteis) a outros cada vez mais complexos, como automóveis e maquinaria. Aproveitam assim o facto de que o regime ditatorial chinês lhes garante um dos salários mais baixos do planeta (50 dólares mensais) para extrair uma gigantesca massa de mais-valia absoluta.

A China exporta esses produtos para todo o mundo, especialmente para os EUA (esta é uma das causas do aumento constante do déficit comercial exterior deste país). Grande parte dos lucros obtidos volta aos EUA, principalmente para comprar títulos do Tesouro. Actualmente, a China aparece como o principal possuidor desses títulos (com a incrível cifra de 900 biliões de dólares), ultrapassando largamente o Japão. Desta forma, financia-se o déficit estatal ianque e o circuito económico dos EUA é realimentado.

No entanto, não nos devemos confundir: os EUA e a China não mantêm uma relação “igualitária”. Os Estados Unidos são o maior país imperialista do planeta e a China transformou-se na maior semicolónia do mundo para este imperialismo.

Por outro lado, o crescimento económico chinês (e também o da Índia) exige quantidades cada vez maiores de matérias primas e assim sustenta bons preços no mercado para os alimentos, o petróleo e os minerais. Desta forma, outros países (como Argentina, Venezuela e Brasil) também beneficiaram, de modo secundário e dependente, com este ciclo de crescimento económico.

A génese da situação actual

Neste momento, podemos dizer que o recente abalo dos mercados financeiros representa um “segundo episódio” da crise que o imperialismo conseguiu controlar em 2000-2001. Ao mesmo tempo, expressa as consequências das políticas que o governo norte-americano implementou para controlar aquela crise.

Em Março de 2000, uma bolha especulativa nos mercados de valores dos EUA foi esvaziada, pondo fim às teorias da “nova economia” baseada nas empresas de informática e internet (as “ponto-com”). Recordam-se ainda os memoráveis escândalos das quebras de Enron e Worldcom. Começou assim um processo recessivo no país, mas que pode ser rapidamente revertido pelo imperialismo.

O governo Bush adoptou duas medidas principais. A primeira foi o aumento do orçamento militar e as inversões em tecnologia e produção bélica. Apesar desta política (uma das razões do lançamento da “guerra contra o terror”), o déficit orçamentário aumentava ainda mais, e, ao mesmo tempo, dinamizava a economia através do impulso do poderoso complexo militar-industrial norte-americano.

Junto com isto, a Federal Reserve reduziu de 6,25 a 1% anual, entre 2001 e 2003, a sua taxa de juro interbancária (referência de base para todas as operações de crédito). Isto gerou uma catarata de créditos baratíssimos sobre o mercado para impulsionar o consumo.

Estas medidas, somadas ao funcionamento da dupla com a China, permitiram reverter a recessão. Desde o final de 2002, a economia mundial começou a crescer a taxas muito superiores ás de anos anteriores, dinâmica que se manteve até agora (o World Economic Outlook do FMI, tinha previsto um crescimento da economia mundial de 5,2% para 2007).

A bolha imobiliária…

Este combóio lançado a alta velocidade corria sobre vias muito frouxas e com alto risco de descarrilamento, já que uma de suas bases era a bolha existente no mercado imobiliário e de construção civil dos EUA e de outros países. Segundo o economista Joseph Stiglitz: “Aproximadamente 80% da alta do emprego e quase dois terços do incremento do PIB dos EUA, nos últimos anos, teve origem directa ou indirectamente no sector imobiliário”.

Os bancos incentivavam as famílias e as empresas a contrair créditos hipotecários baratos para comprar imóveis ou hipotecar as suas casas e utilizar esse dinheiro para outros fins. A construção civil deu um salto impressionante e dispararam também os preços dos imóveis. Inicialmente, isto facilitava a renovação dos créditos e, por sua vez, atraiu novos capitais ao sector.

…furou

Mas toda bolha especulativa tem um limite próprio: os novos imóveis construídos já não encontravam compradores. Estima-se que, em 2006, a venda de imóveis nos EUA teve uma queda de 30%. O que é corroborado por um agente imobiliário de Miami: “Há uma grande quantidade de apartamentos à venda desde o ano passado. Mas não vi ninguém interessado em vê-los para comprar”. Logicamente, o preço dos imóveis começou a baixar: só no último ano caiu 10%. Isto significa que se alguém comprou uma casa a 100 (e pediu crédito para a compra), agora a casa vale apenas 90… apesar de a pessoa continuar devendo 100.

Para alimentar o mercado, os bancos começaram a ceder empréstimos a famílias que sabiam que não podiam pagar ou que teriam muitas dificuldades em fazê-lo. Nasceram assim os chamados “créditos subprime” (literalmente de “segunda categoria”) que começaram a ser comercializados como títulos pelos bancos, ou seus intermediários, como a companhia imobiliária Countrywide. Estes bancos e companhias são os primeiros afectados pela crise.

Ao mesmo tempo, desde 2005, o FED foi aumentando gradualmente a taxa interbancária até 5,25%, aumentando assim os juros a pagar pelos créditos hipotecários, que são de “taxa variável”, aumentando com isso também a dificuldade de muitas famílias para pagá-los. Finalmente, também estão aumentando os impostos sobre os imóveis, o que leva muitas famílias e empresas a tentar vendê-los. Num mercado cada vez mais saturado, isto origina uma queda maior dos preços... Isto é um círculo vicioso.

O esvaziamento da bolha imobiliária leva pelo menos um ano. No entanto, como denunciou o economista Paul Krugman, as empresas e bancos envolvidos no sector vinham “maquilhando” os seus registros do estado dos pagamentos de créditos e da avaliação de imóveis, ao melhor estilo da “contabilidade criativa” (inventada anos atrás pela Enron e a Worldcom para atrasar a sua queda inevitável). Mas a “criatividade” não pode ocultar a realidade: o importante banco de inversões Bear Stearns, acabou por suspender seu fundo de empréstimos hipotecários, pelas perdas sofridas.

Esta impossibilidade de pagar os créditos hipotecários terá fortes consequências sociais directas. A Conferência de Prefeitos dos EUA, numa carta dirigida recentemente ao FED, advertiu para o facto de que “cerca de 2.000.000 de famílias norte-americanas poderiam ver as suas casas sob risco de alienação nos próximos meses”.

Em outra expressão do tremor financeiro mundial, o francês BNP Paribás copiou durante um período o “corralito” implementado pelo ex-ministro argentino de Economia Domingo Cavallo, em 2001 (limitação a uma pequena soma fixa que os clientes podiam retirar dos seus fundos, uma expropriação virtual), ainda que agora a situação tenha-se “normalizado” graças aos fundos recebidos do governo francês.

As perspectivas

A questão mais difícil de analisar e prever com certeza é a das perspectivas que se abrem a partir de agora. A calmaria dos mercados financeiros obtida pelos governos imperialistas, ao custo de gigantescas quantidades de dólares, poderá ser sustentada no futuro, inclusive se for necessário injectar mais dinheiro? Ou, pelo contrário, trata-se de uma calma passageira que anuncia um novo crack financeiro mundial e um novo ciclo descendente da economia?

A primeira perspectiva foi sugerida pelo secretário do Tesouro do governo de George W. Bush, Henry M. Paulson: “Os mercados são resistentes. Podem absorver essas perdas. Passamos por tempos difíceis no passado e enfrentaremos o desafio”. Evidentemente, ele falou da posição de quem pode destinar a esse objectivo centenas de biliões de dólares provenientes dos impostos pagos pelo povo norte-americano e do saque a muitos outros povos do mundo, e está disposto a fazê-lo. O “nós” merece um esclarecimento: no seu passado recente, Paulson foi o principal executivo do gigante financeiro de inversões Goldmam-Sachs. Em outras palavras: “faremos tudo o que for possível para nos salvar”.

A segunda perspectiva, um novo crack financeiro mundial e o início de um ciclo recessivo profundo, está colocada não só pelas contradições estruturais do capitalismo, mas também pelo agravamento dessas contradições e as profundas deformações que o sistema económico mundial desenvolve de forma crescente. O que é impossível prever com seriedade é se estamos assistindo ás suas primeiras manifestações ou se, pelo contrário, o imperialismo conseguirá, com montanhas de dinheiro, adiá-lo um pouco mais.

Abre-se assim uma terceira hipótese: que, através das “injecções”, o imperialismo consiga atrasar a crise, mas não manter a dinâmica de forte crescimento económico mundial dos últimos anos. Neste caso, seria refreada a fase ascendente da “montanha russa”, porém, no lugar de uma queda abrupta, teríamos um planalto de nível baixo. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o Japão, na década de 90, por vários anos: a economia cresceu a taxas muito baixas (entre 1 e 1,5%), mas sem cair numa recessão aberta e profunda.

Finalmente, poderia ocorrer uma combinação da segunda com a terceira hipótese: que o planalto baixo seja sustentado por um período relativamente curto (um ano ou pouco mais) para desembocar finalmente em crise e queda abertas.

Em qualquer dos casos, um facto resulta totalmente claro: o peso da crise, ou o custo necessário para atrasá-la (só até agora, cerca de 600 bilhões de dólares, com certeza será preciso mais no futuro), será descarregado pelo imperialismo e os governos, tantos os dos países centrais como seus lacaios dos países mais débeis, sobre as costas dos trabalhadores e os povos de todo o mundo.

Aqui entra um factor central para definir qualquer perspectiva económica e as possibilidades do capitalismo imperialista de protelar a crise: a luta de classes. Neste terreno, a situação não parece muito auspiciosa para o imperialismo. A guerra do Iraque em vez de assegurar o controlo do petróleo desse país, transformou-se num pântano que demanda cada vez mais soldados e dinheiro. A resistência das massas latino-americanas ao saque e à exploração mantém-se de modo constante. As lutas dos trabalhadores europeus contra os ataques de seus governos vêm aumentando. O governo Bush, inclusive nos EUA, depois do efeito boomerang causado pela situação no Iraque, vê o seu poder cada vez mais debilitado. Ao mesmo tempo, as mobilizações dos trabalhadores imigrantes podem anunciar uma luta mais geral da poderosíssima classe operária norte-americana.

Tudo isso ocorreu sem que houvesse crise económica, inclusive num período de forte crescimento da economia mundial. É bastante provável, portanto, que os ataques que o capitalismo imperialista descarregará sobre os trabalhadores e os povos atirem com mais lenha na fogueira dessas lutas, num momento em que o imperialismo apresenta vários flancos débeis.

Os capitalistas tratam de sair de sua crise aumentando a exploração dos trabalhadores, isto é, aumentando a extração de mais-valia absoluta. Para nós, isto significa que o fazem sobre nosso sangue e o nosso suor. Preparemo-nos então para duríssimas lutas.
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